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Educação para o encantamento

 


Aprender a parar, reparar e se surpreender, sem pressa e com o coração disponível para a beleza, é um passo essencial na educação para o encantamento. Mas o que é fundamental nessa educação? Qual a serventia da beleza no dia-a-dia? Qual a serventia de um dia-a-dia sem beleza? Como apurar o olho e viver em estado de poesia, no meio das nossas perdas, dos nossos vazios, das nossas decepções, dos nossos desacertos, das nossas dores, dos nossos desencontros, das nossas faltas, dos nossos excessos, das nossas ansiedades mais tiradoras de sono?

Além de conversar sobre essas e outras questões em todas as regiões do Brasil, Márcio responde e-mails de quem tem interesse pelo tema. Então, mande a sua pergunta para ele. Clique aqui.

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"Querido Márcio,
 Acompanho suas respostas aqui, nunca perco nenhuma! Aprendi a viver lado a lado com o encantar-se, e esse espaço me ensina cada dia mais em como devemos lidar com as situações difíceis da vida sem perder o brilho. Eu queria que você falasse então de como lidar com o encantamento quando se está apaixonado? Parece bobo, mas o encanto pode ser coberto por tantas emoções fortes envolvidas: é um tanto de medo, de ciúmes, de insegurança... Li uma frase do Drummond que diz assim “O tempo não é medido pelo relógio, mas pelo vácuo na comunicação, pela expectativa sem segurança”. A expectativa sem segurança, acho que é isso que distrai o nosso encanto."
 
- Bruna Magno, jornalista - Curitiba – PR

 

 

Bruna querida,

A sua mensagem deu brilho no meu dia.  Estou aqui com um bocado de e-mails para responder, um bocado de textos para terminar, um bocado de gente para telefonar, um bocado de coisas para fazer na rua, às vésperas do lançamento do meu livro e de uma viagem de semana toda para Belém do Pará, mas resolvi respirar para te responder. Ou será que te respondi para respirar? Assim, respirando com fundura, encontrei uma foto minha de quando eu tinha onze anos de idade, com o sorriso mais dentuço e mais oferecido de todos os sorrisos que eu já dei na vida. Bem, como faria o Mario Quintana, perguntei a esse garoto o que ele estava pensando de mim hoje. E então, enquanto o menino da foto pensava para me responder,  decidi desacelerar um pouco, e te escrever agora, ouvindo La vie en Rose, música que eu cantava para ninar o Gabriel, meu filho, há uns dez anos, quando ele ainda não pesava nos meus braços.

Vou te dizer o que eu acho, como sempre faço aqui, nas minhas respostas, viu? Antes de tudo, é uma delícia saber que você está namorando O livro dos sentimentos. E nada do que sentimos é bobo, não, Bruna. Bobagem costuma ser o que nós fazemos com os nossos sentimentos e, mais do que isso, o que quase sempre deixamos que eles façam conosco. De fato, não temos como escolher os momentos em que aparecem os nossos medos, as nossas inseguranças, os nossos ciúmes, as nossas raivas, os nossos desassossegos, as nossas emoções mais indesejadas. Mas podemos escolher a hora em que vamos interromper tudo isso. A tarefa é difícil, sim, mas compensa a vida toda vez que dá certo.    

Bruna, compensações à parte, será que uma expectativa sem segurança é realmente o que distrai nosso encantamento? Será que toda distração de encantamento é ruim? Tem vezes que nos distraímos do encantamento só para voltarmos ainda mais intensos e inteiros para ele. E também tem vezes que o encantamento é que se distrai de nós, de tantos ruídos que fazemos com os nossos pensamentos engarrafados num trânsito sem fim.  

Quando falamos de sentimentos, incluindo aí a paixão, toda expectativa é um salto no trapézio, sem rede de segurança. Nesse caso, os sobressaltos, as taquicardias e os riscos são a danação e o encanto do que sentimos, do que nos tira o chão e nos dá asa ao mesmo tempo. Mas, para mim, na realidade, o que nos empurra para longe do encantamento, acima de tudo, são as nossas urgências mais sem importância, os nossos pensamentos mais barulhentos, as nossas ansiedades mais tiradoras de poesia, os nossos medos mais alimentados, a nossa vontade de controlar tudo o que nos acontece de mais belo, como se isso fosse possível. Será que existe controle para a beleza? Ou será que no fundo a beleza é o que mais nos descontrola? Numa época em que vivemos obcecados pelo êxito, pelo acerto, pelo sucesso e pelo controle, numa época em que grande parte do mundo tenta meter um GPS na alma da gente, perder o rumo e errar também pode nos fazer mais livres, plenos, mais autênticos, mais felizes. Outro dia autorizei uma amiga a errar. Gostei tanto que hoje me autorizei também. Que tal você errar um pouco hoje, Bruna? Errar também pode ser uma forma de se encantar. Afinal, não há nada mais incerto do que a beleza.

"Oi, Márcio, querido amigo,
O discurso do Saramago na cerimônia do prêmio Nobel é de uma beleza incrível, mas a beleza está na simplicidade, e na valorização do que é mais básico e fundamental da vida. Ver um prêmio Nobel homenageando os avôs analfabetos, criadores de porcos, me emocionou muito. Eu conheço várias pessoas assim, que são sábias, preciosas, apesar dos poucos anos de escola, do pouco ou nenhum convívio com os livros. A educação para a vida pode vir de muitos caminhos, não?"

- Lucia Riff, agente literária, Rio de Janeiro - RJ.

Lucia, minha amiga querida,

Só acredito numa educação que seja para a vida, e acho que ela vem, sim, de muitos caminhos, inclusive, às vezes, da própria escola. Vejo várias pessoas confundindo educação para a vida com educação para o resultado, para a competição e para o êxito. Como se o resultado, a competição e o êxito fossem sempre um fim, e não a consequência de todo um caminho.

Nesse discurso belo e emocionante (que eu reproduzo um trecho aqui, depois dessa minha resposta para você), o Saramago nos mostra que pode haver encantamento na falta, no básico, na simplicidade mais cheia de quentura, e nos lembra que a beleza vem da forma como agimos com as pessoas à nossa volta, e do que somos capazes de fazer com o que nos acontece.

Há criadores de porcos que entendem de pessoas bem mais do que muita gente de estudo. Para quem aprende a reparar nas funduras, e não só nas superfícies das pessoas, das coisas e das situações, o encantamento mora em todo lugar, mesmo com tudo o que ele tenha de mais escasso, sofrido e doído.

Também tenho a benção de conhecer um bocado de gente sábia que quase não frequentou a escola nem nunca abriu de verdade um livro, mas que foi educada para o encantamento. É claro que não é pela falta de livros que essas pessoas passam a ter sabedoria. A literatura, o cinema, a música, o teatro, as artes plásticas, tudo isso serve para aprofundar a nossa sensibilidade e provocar cada vez mais em nós um inevitável apego à vida, principalmente no que ela tem de mais belo, humano e essencial.  

No seu discurso, o Saramago contou como descobriu que a avó dele também acreditava em sonhos. “Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: ‘O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer’. Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada”, disse o escritor.

“A consolação da beleza revelada”... Que frase reveladora... Quantas vezes a beleza nos consola, nos ampara, nos amansa, nos suaviza, nos transforma e nos salva diante das tristezas, dos vazios, das raivas, dos tropeços, das ansiedades, dos pavores e das dores aparentemente mais irremediáveis? Ler esse discurso do Saramago deu clareza no dia e uma vontade irresistível de tirar um tempo para olhar e escutar belezas hoje. À noite, vou assistir ao filme Peixe Grande, do Tim Burton, pela centésima oitava vez, pronto, já decidi.  

E que quando se aproxime o momento de eu ir embora (sem pressa nenhuma, já deixo claro), eu possa sentir pena, e não medo, de deixar tudo o que há de mais belo por aqui. Não uma pena de lamento, raiva e culpa, mas sim com a gratidão mais amorosa, pacificadora e deliciosa de todas.

 

"Márcio,
Cavar um buraco na areia, na terra ou no gramado nos leva ao Japão, ou ao encantamento?
- Marina Colasanti, escritora, Rio de Janeiro, RJ.

Marina querida,

Acho que é a disponibilidade para o encantamento que nos leva a cavar buracos, sem pressa, da forma mágica como o meu pai fazia comigo, erguendo intermináveis muralhas de areia para defendermos a praia dos monstros mais terríveis e assustadores de Copacabana. O meu pai sempre teve disponibilidade para o encantamento, Marina. A minha mãe também. Ele me ensinava a transformar um saco de balas na surpresa mais encantadora do dia. Ela me ensinava a olhar para essas e outras pequenas surpresas com a calma amorosa que a gente tanto carece para parar e contemplar coisas aparentemente mais comuns e sem importância.

Ainda vejo pais cavando buracos com os filhos para chegar até o Japão e aproveitando o tempo com eles de todos os modos que a gente possa imaginar. Muitos cavam de coração arreganhado e são felizes por isso. Ou será que eles só cavam de coração arreganhado justamente porque são felizes? Não sei, não sei. Só sei que nem sempre isso acontece. Na realidade, a maioria só consegue cavar de olho grudado no relógio, como se a criança e eles mesmos tivessem prazo para suspirar. E como se suspirar fosse uma meta cercada de cronogramas e planejamentos. O que mais encontro por aí é gente com alma de planilha, que vai para hotel fazenda com os filhos, em nome do tal tempo de qualidade (ah, que expressão horrorosa), e passa quase o tempo todo delegando o riso das crianças a recreadores, respondendo e-mails, atendendo o celular, e tomando decisões com voz de urgência, para toda a mesa do café da manhã escutar. Na realidade, mesmo que depois parem para jogar futebol com os filhos, ou montar a cavalo com eles, mesmo cheios de amor e boas intenções, esses pais não são movidos pelo encantamento. O que os move para cavar geralmente é a culpa provocada pelas suas mais sucessivas ausências, ou presenças cheias de cobranças incessantes. E não conheço ninguém que se encante movido pela culpa, nem quem consiga encantar outras pessoas, sem viver em estado de encantamento, apesar de todas as dores, brigas, decepções e faltas inevitáveis.
 
O meu pai não cavava comigo para chegar até o Japão simplesmente para ser um bom pai, nem a minha mãe não me ensinava a reparar em belezas novas simplesmente para ser uma boa mãe. Tudo isso simplesmente sempre foi irresistível para eles, como hoje é para mim, quando cavo com o Gabriel. Cavar de verdade para dentro de mim me faz chegar até o meu filho, e chegar até o meu filho me faz cavar ainda mais para dentro de mim. Nem sempre dá certo, claro. Mas que delícia quando dá, Marina, que delícia.