Trecho da palestra de Márcio Vassallo
Outro dia, o Gabriel, meu filho, de sete anos, me fez um convite.
- Pai, vamos olhar a lua até gastar?
No dia anterior, eu havia chegado de uma viagem comprida. Dormi menos que muito pouco, o meu avião atrasou mais que um bocado e o meu telefone celular não parava de tocar. Ou será que era eu que não parava de telefonar? Na tela do computador, eu tinha mais oito toneladas de e-mails para responder, mas antes precisava terminar o texto que uma revista tinha me encomendado. A repórter me ligou de manhã, mas não era para cobrar, não, era só para me lembrar, só para me lembrar.
- Olhar a lua até gastar? – eu perguntei, com espanto, para o Gabriel. E ele me respondeu que sim, levantando as sobrancelhas e balançando de leve a cabeça, ainda mais espantado com a minha pergunta.
Na sala, abri a janela e, junto com o meu filho, vi aquela lua, toda exibida, toda disponível, toda oferecida para nós.
Em silêncio, começamos a gastar o olho dentro da lua e a gastar a lua dentro do olho, num consumo desembestado de reparos.
Depois, sem me virar para ele, eu perguntei:
- E aí, filho, gastou?
- Não, ainda não, pai.
De repente, o Gabriel deu alguns passos para trás e foi se afastando da janela, andando de costas, agachado, sem tirar o olho da lua. Eu o acompanhei, andando do mesmo jeito, me agachando, para não parar de olhar. E assim ficamos, nós dois, de cócoras, olhando a lua de longe, num silêncio que não acabava nunca.
Então, eu pensei: “Este menino de sete anos está me ensinando que, para nós olharmos com profundidade para uma cena, para uma situação, para uma pessoa, tem vezes que nós precisamos nos afastar”.
E no momento em que eu começava a me orgulhar da minha constatação filosófica, o Gabriel foi andando em direção à janela, até ficar debruçado, mais uma vez, de frente para a lua. Fui andando junto com ele, e pensando, olha aí, agora esse menino está me mostrando que não basta nos afastarmos de uma cena, de uma situação, ou de uma pessoa, para olharmos com mais profundidade para elas. Para olhar melhor, nós também precisamos nos reaproximar.
Foi quando o Gabriel me disse:
- Gastou, pai. Podemos ir.
E nós fomos. Depois de um abraço demorado, o Gabriel foi para o quarto dele, transformado num Tiranossauro Rex desembestado, e eu me transformei num Estegossauro, que, além de um dinossauro herbívoro, basicamente, é o alimento preferido do Tiranossauro. Assim, depois de ser devorado vivo, muito tranqüilamente, eu andei até o meu computador, para terminar o monte de tudo que me esperava.
O fato é que seria simples eu ter recusado aquele convite imprevisível que o meu filho me fez, seria simples eu pedir para ele me deixar trabalhar. Eu estava cansado, com muitas coisas para fazer, não teria tempo para olhar a lua até gastar.
Eu poderia nem ter ouvido direito o que ele me pediu, poderia nem ter reparado na poesia daquela frase, poderia ter ligado a televisão para ocupar o Gabriel com outra coisa.
Realmente, se eu tivesse olhado para o meu objetivo do momento, e não para o Gabriel, eu ficaria grudado no computador, focado nos meus e-mails, no meu texto para a revista, no meu prazo que já estava estourando, enfim, eu me focaria naqueles compromissos urgentes, e não olharia a lua até gastar.
É claro que muitas vezes nós não podemos parar o que estamos fazendo para passar quatro minutos com os nossos filhos, nem que seja pelo telefone, quando estamos trabalhando, no escritório, em casa, onde for. Tem urgências que são realmente urgentes. E muitas vezes temos que educar os nossos filhos, para que eles entendam que nem sempre as pessoas vão estar disponíveis para eles o tempo todo.
Só que, na maioria das vezes, temos tempo para reparar neles, mas não reparamos. Temos tempo para reparar nas belezas que passam despercebidas à nossa volta, mas não reparamos. Porque o que nos falta, na maioria das vezes, não é tempo, é a lucidez necessária, como diz uma amiga, para botarmos reparo no olho.
Então, hoje em dia, é muito comum ouvirmos especialistas dizerem que não podemos perder o foco, no trabalho, na família, na vida e nos projetos pessoais. É claro que manter o foco pode ser importante. Mas eu acho que, muitas vezes, nós confundimos foco com concentração.
Manter o foco muitas vezes é olhar só para o mesmo lugar, sem reparar no que está em volta, sem reparar nos imprevistos, nos paradoxos, nas belezas que uma pessoa nos traz, sem perceber que uma pessoa, seja um cliente, um funcionário, um chefe, um colega de trabalho, ou um fornecedor, seja um filho, um marido, uma amiga, seja quem for, essa pessoa não é o cargo que ela ocupa, a função que ela exerce, ela não é o compromisso que assumiu com a gente, ou um mero número de uma estatística de mercado.
Toda pessoa é um universo muito além das aparências, muito além das superfícies, muito além do que um olhar sem fundura pode perceber.
Esse é um dos convites que eu faço a cada um de vocês. E é um convite que eu também faço a mim mesmo todos os dias: reparar, reparar, reparar, não só nas superfícies, mas também na fundura de uma cena, de um momento, de uma pessoa.













