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Início | Comentários | Crítica de Valentina

 


 

O acaso (ah, os incidentes que dão especial molho ao nosso cotidiano!) me fez topar com Valentina.

Foi caso de amor à primeira vista, daqueles que nos entortam sem que saibamos explicar as razões. Foi o tema? O jogo de pontos de vista? Os jogos de palavras? Como saber? Talvez tenha sido porque ela tem pais que contam histórias para acalmá-la e fazê-la adormecer em segurança, mesmo quando os dragões do lugar cospem “fogo e barulho para todos os lados”. Paixão fulminante. Não podia deixar passar. Tudo aconteceu de repente, quando a valente princesinha, sem se fazer anunciar, atravessou a porta de asa aberta de seu castelo e reivindicou lugar na roda.

Valentina é para ser lançada como rede ao mar numa roda de histórias. Leitura para ser dividida com crianças ávidas de histórias. Leitura compartilhada, alcançando tanto quem mora perto como quem mora longe de tudo. Valentina, a princesinha que mora num castelo “na beira do longe, lá depois do bem alto”, como a grande maioria das crianças brasileiras. Valentina, a menina que, como tantas, tem pais que saem para trabalhar “bem antes do sol engatinhar”, porque desejam que ela seja “alguém na vida”.

A roda de histórias gira no virar das páginas de Valentina. A imaginação voa na boniteza das metáforas, que descrevem a menina, dona de “uma beleza que não cabia em página de livro”, ”orelha de abano para escutar cochicho de nuvem e perna comprida para escutar pensamento”, riso esparramado pelo rosto “que nem gato espreguiçado” e óculos que eram “guarda-sóis transparentes”.

Ah, e as ilustrações de Valentina? É danada de boa, essa Suppa! Usa traços simples e fortes no desenho, junta num mesmo saco papel reciclado, papel jornal, recortes, fotografia... Só quem sabe muito pode misturar tanto! É preciso fazer Valentina rodar na mão das crianças, elas precisam olhar bem de perto os efeitos que essa mistura provoca. Elas precisam ver que Valentina traz sempre uma coroa à cabeça, como toda princesa de conto de fadas que se preze. Afinal, se ela é mesmo uma princesinha, nada mais justo que a ilustração realce sua realeza! E a coroa de jornal avisa: a imaginação não tem limites. Com um limão pode-se fazer uma boa limonada. Com jornal, então: até roupa, sabiam? Além do mais, para os que têm olhos de ver, a coroa de jornal é puro ouro na cabeça de Valentina, uma princesinha de verdade, daquelas de sentir grãozinho de ervilha debaixo de vinte colchões.

E, mais importante do que ser princesa, é o fato de que Valentina se sente princesa. Mas ela não é a única. Se perguntarmos às crianças participantes da roda, vamos saber que muitas são as “princesinhas da casa”, no conceito de seus pais. E Valentina não apenas se sente uma princesa, ela enxerga os pais como rei e rainha. Está aí a ilustração da Suppa para confirmar as palavras do Márcio Vassallo, autor da história. Valentina só não entende por que, sendo rei e rainha, os pais trabalham tanto e não ficam com ela. E esse Márcio Vassallo, o autor? Parece que adivinha as coisas! Ele colocou na Valentina a mesma sensação - misto de medo e uma pontinha de revolta - que as crianças da roda de história sentem, porque seus pais trabalham demais. Ah, tempos esses em que os pais mal conseguem ficar perto dos filhos! Reclame por elas, Valentina, enquanto a roda pára e a conversa das crianças gira em torno de como aproveitam os momentos (raros, para a maioria) de lazer com os pais, em torno de como enxergam a importância do trabalho deles para o sustento da família...

Em Valentina, apaixonante é o jogo que escorre do texto escrito e encharca a imagem, tão plena de significações quanto a escrita, revelando/sugerindo o que as palavras não contam, para que nós, leitores, cuidadosamente caminhemos para além delas. E nesse caminho aprendemos, por exemplo, que a cor da pele do pai de Valentina é branca e que a da mãe é negra. Que Valentina, a filha, é negra. Pois é, a nossa princesinha tem a mesma cor de pele que a maioria das crianças matriculadas na Educação Infantil no Brasil. Aliás, como tantas outras heroínas da vida real.

Em Valentina, o cuidado com as palavras é o do garimpeiro que se afunda no rio em busca da pedra mais preciosa, que busca e extrai faíscas de ouro, perdidas no solo. É trabalho meticuloso, de procura. Mas também de descobertas tão cristalinas quanto o sorriso límpido das crianças. “Valentina também mostrava que a cama em que ela dormia tinha vontade guardada para a noite e cheiro de abraço amarrotado. E o castelo da Valentina tinha brilho que transbordava da sombra. O quintal da Valentina tinha galo que esfregava o berro no muito cedo.” É uma lindeza só! Esse Márcio Vassallo tem delicadezas de filigranas com as palavras, cuidados de mãe embalando filho para não espantar sono. É por isso que Valentina ficava toda “sorrida” quando, lá de baixo, apontava o castelo onde morava. Olhem só que achado!!! Que outra palavra cairia melhor do que esta “sorrida”, composta talvez pela imprevisível união de “sorridente” e “cheia de vida”, ou outras duas quaisquer, letras engolidas na palavra inventada para transbordar o sorriso, a alegria, o bom orgulho de Valentina pelo lugar onde morava.

Valentina é feliz, apesar do medo causado pelos “dragões do lugar”, que cospem “fogo e barulho para todos os lados”. Os nossos medos entram na roda. Quem não tem medo? E temos medo do quê? Do escuro? De dentista? Da morte? De polícia e bandido? Da insegurança do lugar onde moramos? Como nos protegemos do medo? O rei e a rainha protegem o castelo com pensamentos bem esticados (ah, o aconchego das histórias! Não dá mesmo vontade de esticar a palavra “bem”, como numa história sem fim, tal Sherazade e suas Mil e Uma Noites espantando a morte?), contando histórias para que a princesinha se acalme e adormeça. Quem ouve histórias na hora de dormir? Quem conta? Que tipo de histórias?

Girando a roda da história, aprendemos que Valentina foi conhecer Tudo, que ficava lá embaixo e onde tudo era muito igual: as pessoas usavam as mesmas roupas, faziam os mesmos gestos, gostavam das mesmas coisas e das mesmas cores, faziam os mesmos passeios e falavam do mesmo jeito. De lá de baixo, descobriu que o seu castelo ficava “no meio de um bocado de castelos, num morro do Rio de Janeiro”. E nesse passeio, enquanto Márcio Vassallo mostra com palavras o contraste entre a mesmice de Tudo e a vivacidade e cor do lugar onde Valentina mora, a ilustradora Suppa opõe uma foto em preto e branco e sem vida da cidade do Rio de Janeiro a uma colorida favela num morro possível carioca. Texto escrito e imagem brincam em sintonia, reforçando a narratividade da história.

Valentina joga também com a desconstrução de preconceitos. Sua família mora numa favela e é nobre, composta de rei, rainha e princesa. O que é ser nobre? O que é preciso para obter esse título? Nobreza existe em qualquer lugar e em qualquer pessoa ou só algumas pessoas, que vivem em determinados espaços podem ser nobres? Questões provocativas jogadas na roda podem ser uma excelente oportunidade para uma discussão sobre valores, sobre a diversidade étnica, as diferenças de credo, de cor, de opiniões etc., num trabalho que leve à conclusão de que a diversidade é fator de riqueza cultural, que é preciso respeitar as diferenças, construindo no dia-a-dia uma atitude de respeito a si próprio e ao outro.

Valentina, tão semelhante a tantas outras valentinas - como as que formam a roda - , na aparência, na maneira como vive, no lugar onde vive. Por isso, a roda pode continuar em atividades de desenho (o retrato de Valentina e auto-retrato, destacando características físicas como cabelo, cor dos olhos, cor da pele etc., estimuladas por questões do tipo: Como você é? Como são seus cabelos, seus olhos...? Você usa óculos?). A sala onde está acontecendo a roda de história pode ser enfeitada com um varal onde os desenhos produzidos ficarão expostos, qual bandeiras desfraldadas, ao vento. É possível também, partindo da observação da cor dos componentes da roda de histórias, fazer um gráfico da turma quanto a essa questão. Qual a cor que vai predominar? Depois de descobrirmos isso, uma conversa sobre a diversidade étnica que compõe o Brasil será atividade bastante produtiva.

O castelo da princesinha está encarapitado no morro. Depois da roda de história, podemos produzir, em grupos, um desenho retratando o morro, grávido de castelos certamente lotados de outras tantas valentinas. Para isso, podemos utilizar material variado, como papéis diversos, revistas e jornais velhos, retalhos de tecidos, giz de cera etc., juntando esse material numa colagem bem criativa, como o próprio projeto gráfico do livro.

Essas são algumas sugestões, apenas. O (A) professor(a) deve assumir uma postura de combate a todas as formas de discriminação e preconceito, valorizando as diferentes etnias que constituem o Brasil e que, de certa forma, estão representadas nas crianças que compõem uma sala de aula na Educação Infantil. É importante destacar que essas propostas não podem, de forma alguma, ter qualquer ranço de obrigatoriedade, de imposição, de dever que vá diminuir a beleza do texto. Valentina tem um texto para ser sentido, um texto que evoca imagens e emoções.

Para finalizar, um destaque: para assumir o compromisso de trabalhar a diversidade cultural e étnica na Educação Infantil, o(a) professor(a) precisa ter segurança quanto ao que será desenvolvido. Um caminho para isso é a reflexão conjunta dos professores nas reuniões pedagógicas, procurando respostas a indagações como: Sou preconceituoso(a)? Já vivi situações de discriminação ou preconceito? E, tratando-se da etnia negra: O que sei sobre o continente africano? O que sei sobre as condições dos africanos escravizados no Brasil? O que sei sobre suas lutas de resistência, seus heróis, suas histórias? Conheço a história de Zumbi? Outro caminho, posterior a essa discussão que certamente acontecerá, é o da pesquisa: ela mostrará os diversos povos que formam o continente africano (Você sabia, por exemplo, que ele abriga mais de duas mil línguas e dialetos?), a civilização egípcia, com suas pirâmides monumentais, a influência que os africanos escravizados tiveram na formação da identidade brasileira, nas religiões, festas, cantigas, danças, culinária e, principalmente, histórias que contribuem para ampliar o repertório e povoar o imaginário das crianças com representações positivas do negro.

Nossas escolas pretendem formar cidadãos. E cidadania não combina com desigualdade, assim como democracia não combina com preconceito e discriminação. Se as crianças vão à escola porque desejamos que se desenvolvam plenamente como seres humanos, considerando suas histórias de vida, saberes, vivências, culturas, potencialidades, valores, afetos e interações, precisamos prepará-las com aprendizagens significativas. A escola é campo fértil para o desenvolvimento do respeito a si mesmo e ao próximo, cuidados que não podem ser esquecidos, desde a Educação Infantil. Exercer plenamente a cidadania requer enxergar a diversidade como fator de enriquecimento cultural. Cinderela e Rapunzel, sim! Mas Menina Bonita do Laço de Fita (clássico de Ana Maria Machado) e Valentina também!

- Sueli de Oliveira Rocha é coordenadora, na Baixada Santista, do Programa de Leitura da Petrobras-RPBC pelo Leia Brasil, ONG de promoção da leitura. É também membro do conselho editorial dos jornais Bolando Aula, Bolando Aula de História e Subsídio e da equipe pedagógica do Gruhbas Projetos Educacionais e Culturais.