Entrevista feita ao Júlio Gama, para a Agência Riff, em julho de 2005.
POESIA PARA DAR CORDA NA VIDA
Márcio Vassallo lança a biografia do poeta Mario Quintana, publica seu quarto livro infantil e ensina aos pais como diminuir urgências, espiar paisagens e catar silêncios com os seus filhos.
Por Júlio Gama
Você está lançando a biografia do Mario Quintana, pela editora Moderna, dentro da coleção Mestres da Literatura. O que podemos aprender com o Mario antes de completarmos 80 anos?
Márcio Vassallo - Ah, que a beleza está disponível para a gente o tempo todo. Mas que a gente também precisa ficar disponível para ela. E eu acho que ficar disponível para a beleza é interromper correria para se espalhar numa paisagem, se espalhar num momento, se espalhar numa vontade. Mesmo que essa paisagem seja a rua onde você passa todo dia, mesmo que esse momento dure trinta segundos, mesmo que essa vontade te atrase a tarde. Sabe, eu acho que, às vezes, atrasar a tarde dá corda numa vida toda.
Quando era homenageado, Mario ficava sem palavras, mas como sabemos, logo as encontrava. Qual o melhor lugar para um poeta buscar palavras?
Márcio - Nas pessoas, sempre nas pessoas. Mas um poeta não pode ir atrás das pessoas só para achar palavras. Se ele buscar pessoas simplesmente para achar palavras, pode até encontrar uns versos, pode até escrever muitos livros, pode até ser aplaudido e premiado por um bocado de gente, mas não vai encontrar a poesia, de jeito nenhum. Na realidade, é a poesia que puxa o poeta para dentro de um texto, para dentro de uma cena, para dentro de uma pessoa. Para um poeta, a poesia não é um lugar ou um estágio onde ele consegue chegar, a poesia é um modo de viver, é um meio de olhar.
Mas o que dizer para as mães que insistem: “Vai estudar, menino, poesia não enche a barriga de ninguém”?
Márcio - Ah, eu diria a elas que poesia não é pra encher barriga, é pra encher a vida. É, eu acho que a poesia deixa a gente assim, com a vida enchida de beleza, e a beleza também enche a gente de poesia.
Antes de virar palavra, imagino que a poesia nasça em imagens. Como capturar imagens e transformá-las em poesia? Existem redinhas como as que se usam para capturar borboletas?
Márcio - Não é o poeta que captura a poesia, é a poesia que captura o poeta, e ele se rende, feliz da vida. Também acho que o poeta não transforma imagens em poesia. Ele vê é poesia nas imagens. Ele vê poesia em tudo.
Como os demais escritores, Mario dedica boa parte de seus textos ao tempo, que passa e quando se vê já são 6 horas e já é sexta-feira e já se tem 60 anos.Como aprender a deixar o tempo correr macio?
Márcio - O tempo não corre, quem corre é a gente. Eu não tenho receita pra amaciar o tempo, mas acho que se você amacia pessoas, se você amacia o seu dia, também vai suavizar as horas, as semanas, os anos. E olha, amaciar pessoas e suavizar o tempo, nesse caso, não é anestesiar dores, desencontros, medos, perdas e frustrações. Amaciar pessoas e suavizar o tempo é viver sem raiva, é não guardar rancor, é se apegar cada vez menos a aborrecimentos de agenda, é aprender a olhar mais o percurso sem se aperrear tanto com a chegada. Uma vez, quando tinha uns 13 anos, viajei com os meus pais e os meus dois irmãos mais novos, de carro, de Belém do Pará ao Rio de Janeiro. Foram cinco dias de estrada. Meus irmãos e eu íamos deitados atrás, com o banco da Caravan rebatido, travesseiros espalhados, isopor com queijo e coca-cola, às vezes lendo livros, às vezes inventando jogos, às vezes se enforcando, mas logo se abraçando, quase sempre rindo muito, e conversando, conversando, conversando. Era tão mágico. Meu pai dirigindo, minha mãe toda bonita do lado, meus irmãos e eu, nós cinco atravessávamos o Brasil e entravamos cada vez mais um no coração do outro. Fomos outras vezes também, de Brasília para o Rio, do Rio para a Bahia. De um canto pro outro. Porque o meu pai é da Marinha, a gente vivia zarpando. E eu me lembro também que uma das coisas que eu mais gostava nessas viagens era me atirar com o olho, me jogar nas lindas cenas de estrada que passavam por mim. Hoje, como diria o Drummond, eu vejo que as cenas de dentro do carro eram ainda mais bonitas que as cenas da estrada. Acho que deixar o tempo correr suave é isso, deixar o tempo correr suave é viver sem pensar no próprio tempo cada instante junto dos seus amores, junto dos seus afetos, junto das pessoas com quem você convive. Esse é um dos nossos grandes desafios. Afinal, como disse o Mario Quintana, só quem não pensa no tempo são as crianças, os bêbados, os apaixonados e os poetas.
Poesia tem hora?
Márcio - Não, é a hora que tem poesia.
Além da elegância da escrita, os melhores poetas que conheço têm em comum a timidez, a falta de habilidade para ações rotineiras do mundo moderno, como dirigir um automóvel ou manejar um liquidificador. Mario também era assim. Por que será?
Márcio - Todo poeta é um pouco lesado, mas nem todo lesado é poeta. Outro dia, fiquei bem contente por que consegui comprar um benjamim e ligar o computador no fax e no telefone, usando aquelas tomadas que têm pele de unicórnio, aquelas tomadas de três chifres. Rapaz, eu me achei o máximo fazendo coisa de gente crescida. Dirigir carro, como você sabe, eu também nunca dirigi. O meu olho é muito cheio de curva, não ia dar certo, não. Minha mãe me conta que comeu muito damasco quando estava grávida, me esperando. A Doutora Maria, médica que cuidava dela na época e primeira mão que me pegou nessa vida, tinha dito que comer damasco ia dar inteligência no menino. Então, existe uma forte corrente na minha família para quem aqueles damascos que a minha mãe comeu estavam fora da validade.
É bem provável... Mario disse certa vez que a principal coisa que lhe aconteceu foi ter nascido – no dia 30 de julho de 1906. Vassallo, depois de escrever a biografia do poeta, o que você diria que de mais importante aconteceu na vida do Mario, depois do nascimento?
Márcio - Ah, eu acho que foram as pessoas que ele conheceu, que conviveram com ele, que mais o inspiraram, que mais o ouviram, que mais o alimentaram de poesia, que salvaram a sua vida: seus amigos, seus amores, as moças das cidades pequenas...
Meninos que trabalham com manipulação de fármacos, que vêem beleza nas coisas mais desimportantes devem ser figuras raríssimas hoje em dia, quando a eletrônica domina o tempo e a mente infantil. Haverá tempo e espaço para o surgimento de outros Marios?
Márcio - Os meninos continuam vendo beleza nas coisas mais desimportantes. Eles ainda param na rua pra mirar folha voada, pra descobrir a cor de um suspiro, pra ouvir barulho de água caída. O problema é que os adultos, em geral, não têm tempo para essas coisas. Fico um bocado feliz quando vejo um pai, ou uma mãe, uma professora, ou quem quer que seja, parar no olho de um menino, agachar na altura da inquietação dele, e ficar dois, três, dez minutos disponível pra olhar alguma cena, pra catar algum silêncio, pra espiar alguma dobra na paisagem. Mas as pessoas estão cheias de urgências. É, elas estão cheias de urgências sim. Eu tenho visto muita gente com muita pressa, sempre saindo, sempre chegando, sempre cobrando escolhas e decisões e atitudes e maturidade das crianças para as coisas mais inacreditáveis. Outro dia, por exemplo, eu estava com o Gabriel, meu filho, de quatro anos, jogando xadrez com ele, no Piraquê, o clube que a gente freqüenta. O Gabriel ainda não sabe jogar xadrez e eu não tive estudo para aprender. Então, quando a gente estava inventando um jogo, quando a gente estava inventando uma narrativa para os cavalos, para as torres, para os reis e para os peões, no tabuleiro, quando o tabuleiro estava virando um chão de espalhar fantasia, vi que uma menina e um menino jogavam a sério na mesa ao lado. A menina devia ter uns dez anos, o menino não tinha mais que oito. O pai deles estava no meio e rosnava e bufava e se irritava com ela e com ele, a cada jogada mal executada, a cada lance dispersivo, a cada desatenção de uma ou da outra criança. Ele não estava ali para aproveitar o tempo com os seus amores, estava ali para preparar os filhos, para dar mais competição na idéia deles, para dar sede de resultado na vocação daquelas crianças. E eu não tenho nada contra preparar um filho, não tenho nada contra a competição, quem não compete não sobrevive, é claro... Só acho que preparar demais estilhaça o encantamento entre pais e filhos, afasta uns dos outros, e acaba não preparando coisa nenhuma.
Descobrimos em seu livro que Mario era fanático por palavras a ponto de telefonar para o Celso Luft para debater sobre uma ou outra. Que palavras usaria para definir o Mario?
Márcio - Ele foi um espelho dos seus próprios poemas: lírico, trágico, leve, sombrio, humorado, provocador, assombroso, sedutor, apaixonante, forte, frágil, encantador...
Você escreve que, diferentemente de meninos de sua idade, Mario não gostava de jogar futebol e que preferia "despentear as tranças da lua e espiar os decotes da noite". Mais velho, ele se interessou mesmo pelas tranças e decotes das moças. Qual importância das mulheres, dos amores correspondidos ou não, na poesia de Mario?
Márcio - Acho que se o Mario estivesse aqui, de olho brilhado, em vez de medir a importância das mulheres na poesia, ele ia preferir medir a importância da poesia nas mulheres, ou, melhor ainda, da poesia das mulheres. O Mario puxou muita poesia das mulheres, e escreveu muitos versos sobre elas. Mas, na realidade, elas é que mais puxaram poesia do Mario. Tem mulheres que são uns verdadeiros versos, né? São versos que dispensam palavras...
Serão algumas mulheres poesia-imagem, antes de virar palavras?
Márcio - Acho que sim... Mas nem toda mulher vira palavra, você não acha? Tem mulher que vira música, tem que mulher que vira silêncio, tem mulher que vira a gente pelo avesso e acha por dentro da fundura coisas bonitas que nem a gente conhecia.
No poema sobre a moça do circo, Mario diz sobre sua paixão platônica: "Eu tinha oito anos e sabia esperar". E emenda: "Agora não sei esperar mais nada". O que o Mario mais esperou na vida: reconhecimento, amor?
Márcio - Acima de tudo, talvez ele tenha esperado por um reconhecimento cheio de amor, e por um amor cheio de reconhecimento.
O que pode um poeta esperar da vida?
Márcio - Um poeta de verdade não espera nada da vida, ele espera mesmo é pela vida em si. Tem vezes que ela vai até ele, tem vezes que ele vai até ela, tem vezes que ela foge dele, tem vezes que ele foge dela.
Sobre Poeminha do contra ("Essas pessoas que estão aí/atravancando o meu caminho/Elas passarão/Eu passarinho"), não acha que viveríamos melhor se as pessoas respondessem com poesia a todos os que atravancam o seu caminho?
Márcio - Pode ser... Bela pergunta, bela pergunta... Mas sabe de uma coisa, eu não acho que a poesia seja uma resposta. A poesia simplesmente reverbera. É que nem quando a gente joga uma pedra num lago, numa lagoa, e a água vai se abrindo, vai se abrindo, vai formando uns círculos, vai arreganhando a paisagem. A poesia não arreganha a paisagem nem arreganha a gente para responder a alguma coisa ou a alguém. Ela arreganha porque alguma coisa ou alguém deu provocação nela.
Em belo trecho do livro VELÓRIO SEM DEFUNTO (editora Globo), Mario conta a historia de Seu Glicínio, porteiro que acreditava que depois de velho rato virava morcego, e critica quem tenta mostrar-lhe a verdade, dizendo: "Não o desiludas com teu vão saber, respeita-lhe os queridos enganos: Nunca se deve tirar o brinquedo de uma criança, tenha ela oito ou oitenta anos". Que brinquedo(s) devemos levar conosco dos 8 aos 80 anos?
Márcio - O olhar, o olhar, o olhar... O estranhamento diante das cenas, das pessoas, das cores, das palavras, a estranheza que nos paralisa de amor, de magia, de encantamento.
Imagino que poesia venda menos que os populares livros de auto-ajuda. Mas aí Mario escreve: "Se as coisas são inatingíveis, Ora... não é motivo para não querê-las, Que tristes os caminhos, Se não fora a presença das estrelas". Não acha que a poesia também pode nos dar alegria e paz, além de ser mais saborosa que os livros de auto-ajuda?
Márcio - Depende do leitor, depende da poesia. Tem poesia que dá alegria, tem poesia que dá tristeza, tem poesia que dá paz, tem poesia que dá tumulto. Bem, eu acho que a poesia mesmo, a poesia de verdade, dá um pouco de tudo ao mesmo tempo na gente. Ler a poesia do Mario Quintana, por exemplo, dá vontade de ir, dá vontade de voltar, dá vontade de seguir, dá vontade de parar, dá vontade de dormir, dá vontade de acordar... Ler o Mario dá na gente um monte de desejos diferentes. Mas a vontade maior, que a poesia dele dá no leitor, é a de abrir outro livro do poeta, mais rápido que muito logo.
A leitura do seu livro nos faz crer que Elena Quintana foi um anjo da guarda na vida de seu tio, Mario. Pode a poesia nos ajudar a encontrar o nosso anjo da guarda?
Márcio - O esporte favorito do Mario, como ele mesmo dizia, era a luta livre com o seu anjo da guarda. De repente, a poesia pode mesmo é ajudar o anjo da guarda a encontrar a gente. Será que anjo da guarda tem tempo pra ler poesia? Tomara, tomara... Mas olha, foi um desafio descabido escrever sobre o poeta do meu coração, sobre o poeta que mais me toca, que mais me assombra, que mais me seduz. Para fazer o livro, reli várias vezes todos os livros do Mario e entrevistei pessoas que conviveram de perto com ele. Esses depoimentos, todos exclusivos, estão no livro. Então, por exemplo, tem lá a Lya Luft e o Luis Fernando Verissimo, que se derramam de amor pelo Quintana, e contam histórias mágicas e engraçadas sobre o poeta. Dentre outras pessoas, também entrevistei a advogada Sandra Ritzel, que quando tinha 15 anos de idade foi morar com o Mario, para cuidar dele. Em determinada época da vida, por problemas de saúde, o Mario passou a precisar de cuidados médicos, e também tinha que ter sempre um anjo por perto. Nesse sentido, a Sandra foi mesmo um anjo na vida dele. Aliás, ele também foi um anjo na vida dela. No livro, a Sandra conta como o Mario ditava poemas para ela, antes de dormir e diz que tudo na vida tinha gosto de poesia quando ela estava com ele. E durante algumas madrugadas, entrevistei a Elena Quintana, sobrinha do Mario e titular dos direitos autorais da obra dele. A Elena, que me deixou entrar na vida do seu tio com tanta delicadeza, com tanta doçura, com tanta generosidade, realmente foi um anjo da guarda na vida do Mario. Ela, que cuidou dele com tanto amor e tanta dedicação, conta histórias maravilhosas do tio, e descreve o quanto ele era incapaz para coisas práticas da vida, como dirigir carros e ligar liquidificadores.
Vinícius de Moraes dizia que bebia para deixar os outros mais interessantes e Mario escreveu certa vez que ele era uma pessoa muito desinteressante quando não estava em estado de poesia. Como podemos alcançar também esse estado de poesia?
Márcio - Lendo Mario Quintana, lendo Vinícius de Moraes, lendo Drummond, lendo Manoel de Barros, lendo Cecília Meireles... Mas é claro que não basta ler bons autores para a gente alcançar esse estado de poesia. O mais importante de tudo é fazer as pequenas coisas da vida com uma felicidade irresistível, é flutuar com as pequenas conquistas, é sair de casa para tomar um Chicabon quando o computador travar, é olhar no fundo dos seus amores (Gabriel e Cecilia já devem estar afundados de tanto eu olhar pra eles), e andar pela Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, à tarde... Ah, como eu gosto da Visconde de Pirajá... Às vezes eu fico inventando um monte de desculpas pra passar por ela. Aí eu passo, e ela fica toda exibida pra mim... Bem, o meu estado de poesia eu alcanço assim. Ou será que é ele que chega até mim?
Você conclui o livro dizendo que o que há de mais encantador na poesia é o silêncio que ela dá na gente. Que silêncios você recomenda a quem quer descobrir a poesia, redescobrir-se, surpreender-se, rolar e se escutar, como diz você?
Márcio - Tem uma rua perto de onde eu moro, em Copacabana, que é cheia de silêncio nas bordas. Sabe, eu gosto muito de andar com o meu filho por essa rua. O Gabriel e eu chamamos essa rua de Rua do Silêncio. Por que nela, que é cheia de silêncio nas bordas, que é cheia de silêncio bordado, nessa rua, a gente consegue escutar os bocejos do vento, que passou a noite acordado... A gente consegue escutar o pensamento de uma moça que está sempre na janela (e é cada pensamento que eu nem te conto), a gente consegue escutar os passos da tarde, que vai passando, vai passando, vai passando, e levando a gente com ela. Mas você me perguntou que silêncios eu recomendo a quem quer descobrir a poesia, redescobrir-se, surpreender-se, rolar e se escutar? Olha, recomendar silêncio dá gosto na minha idéia. Tem tanto silêncio bom... Tem silêncio de olho parado antes do beijo, tem silêncio de beijo acabado depois do olho, tem silêncio de gente mergulhada em história bonita, tem silêncio de história bonita mergulhada em gente, tem silêncio de quem diz elogio com suspiro, tem silêncio de quem suspira e se derrete diante de agrado...
Vassallo, quando o conheci, há 19 anos, você me mostrou um livro, o seu primeiro, editado aos 15 anos de idade. Isso num tempo em que os colegas do curso de jornalismo ainda penavam para colocar idéias banais no papel. Quando e como a literatura se apresentou a você?
Márcio - Ah, bem antes de muito cedo, as minhas avós enchiam o meu ouvido de fantasia, para eu dormir. E aquele enchimento me dava um suspiro que não cabia no quarto. Os meus pais também sempre me contavam histórias, todos os dias, com ou sem livros nas mãos. Aquelas histórias se mexiam dentro da minha idéia, feito vontade desembestada. E a melodia daquelas vozes me contando histórias me fazia flutuar. Depois, quando tinha 17 anos, li Coração não toma sol, do Bartolomeu Campos de Queirós, e levei um susto, daqueles que a gente leva quando vê uma boniteza muito rara e fica de olho pasmado. Assim, eu fiquei de coração tomado pela literatura infantil, e a partir daquele momento também tive desejo de escrever. Quer dizer, escrever histórias eu já escrevia desde os 13 anos. Mas dali em diante, fiquei com desejo de também ser lido pelas crianças. E eu acho que essa é uma das delícias de fazer literatura infantil. É você também ser ser ouvido, ser falado, ser lido pelas crianças. E ser lido por gente crescida também. Então, o tempo passou (o tempo sempre passa) e eu fui amadurecendo esse desejo de escrever. Comprava tudo quanto é livro do gênero, até que me espalhei nas histórias da Sylvia Orthof, e a vontade de escrever literatura infantil me tomou de vez. Assim, eu acabei lançando meu primeiro livro, A PRINCESA TIANA E O SAPO GAZÉ, pela minha querida editora Brinque-Book. É a história de uma princesa cansada dos príncipes, que acaba virando sapa e vai morar num brejo disfarçado de castelo, em Copacabana. Ela se apaixona por um sapo metido a Don Juan, que se gaba com os amigos de fazer as lagartixas subirem pelas paredes, mas que depois também se rende ao amor.
Você escreve para diferentes públicos, mas dedica mais tempo à literatura infantil. Por que escolheu esse segmento? Ou ele lhe escolheu?
Márcio - Como eu disse outro dia ao Carlos Herculano Lopes, numa entrevista para O Estado de Minas, a literatura infantil foi a roupa que eu escolhi para vestir os meus sonhos, as minhas ansiedades, os meus aperreios, as minhas faltas, os meus deslumbramentos. Bem, se é que a gente escolhe alguma coisa assim nessa vida... Além disso, a literatura nem sempre é uma roupa de vestir inquietações. Muitas vezes, na realidade, o que ela faz é despir a gente com delicadeza e fúria, até as palavras ficarem nuas, sem maquiagem, cheias de silêncio. Meu novo livro, O MENINO DA CHUVA NO CABELO, por exemplo, acaba de sair pela editora Global com ilustrações muito belas do Odilon Moraes. É a história do Arthur, um garoto que queria ser jogador de futebol. Ser jogador de futebol era tudo o que ele mais queria. Todo mundo incentivava o menino. Todos diziam que ele conseguiria. Era só ele querer, era só ele correr, era só ele tentar que chegaria lá. Mas a verdade é que o Arthur não tinha tempo para tentar nada. Ele só tinha mesmo tempo para brincar. Porque os pais dele escondiam os relógios dentro da casa castanha onde moravam. E o Arthur nunca pensava no tempo. Só quando chovia. De fato eu queria ter sido jogador de futebol e ter jogado no meu time de coração, e na Seleção, como a maioria dos moleques da minha época. Hoje eu vou muito a escolas conversar com as crianças sobre os meus livros. E vejo que muitos meninos continuam sonhando em ser jogador de futebol. Só que, em geral, o sonho virou um meio, deixou de ser um fim. Na maioria das vezes, hoje em dia, o menino quer ser jogador para jogar no Barcelona, ou no Milan; para ficar com as mulheres mais desejadas do Brasil, para desfilar num BMW, para aparecer na televisão. Jogar num grande clube do Brasil virou só uma passagem para outros fins. É, como disse um amigo nosso outro dia, isso começou a mudar depois do Robinho e do Ronaldinho Gaúcho. O Tostão escreveu no Jornal do Brasil que o Ronaldinho Gaúcho está reinventando o futebol. Agora eu vejo que muitos meninos estão voltando a sonhar em ser craques, simplesmente pelo prazer de jogar bola e pelo orgulho de inventar um estilo. E eu acho que a literatura é capaz de reinventar o pensamento de um menino, é capaz de reinventar a vida de uma pessoa, nem que seja por vinte minutos.
O ex-presidente francês François Miterrand disse certa vez a seu biógrafo que o que mais lhe doía era olhar suas fotos quando criança, saudável, feliz, sorridente... e pensar o que teria ele feito com a vida daquele menino, onde teria escondido tanta beleza e alegria. Arthur, o personagem de seu livro, também cresceu, passou a pensar no tempo, ficou mais gordo, sem cabelo... Um dia todos olhamos essas fotos e pensamos o mesmo. Se isso é inevitável porque dá esse aperto no peito?
Márcio - O Paulinho da Viola, compositor que divide o meu coração com o Chico Buarque, diz assim. "Meu tempo é hoje. Eu não vivo no passado, o passado é que vive em mim". Ele diz essa frase no filme Meu tempo é hoje, aquele documentário primoroso da Izabel Jaguaribe, com um roteiro emocionante do Zuenir Ventura. E é o que eu penso. O passado vive muito mais em mim do que eu nele. De vez em quando me dá esse aperto quando olho uma foto, quando converso com alguém, quando escuto uma música, claro. Mas é um aperto bom. Comer jambo graúdo, por exemplo, me dá esse aperto, me dá por dentro um cheiro de pé descalço, um cheiro de falta de preocupação, me tira o ar de tanta belezura. Eu adorava subir na árvore para comer jambo, em Belém do Pará, onde eu vivi dos 12 aos 17 anos. Lá de cima eu conversava com os amigos... Falar bestagem com amigo, aos 12 anos, no alto de um jambeiro, dá beleza na vida toda. De cima de um jambeiro eu também espiava a menina mais bonita da vila. Ai, e foram tantas meninas mais bonitas da vila onde eu morei.
O professor de literatura e crítico Flávio Carneiro compara O MENINO DA CHUVA NO CABELO a um drible de Garrinha, aquela jogada que a gente prevê, mas que nos desconcerta pela genialidade. A habilidade de Garrincha em encantar o público vinha de suas pernas tortas. De onde vem a de um escritor?
Márcio - Vem de um olho torto que olha por dentro das dobras, que encontra fresta em tudo, que não pára de olhar nunca, o tempo todo. A habilidade de um escritor vem da maneira como ele entorta uma paisagem, ou uma pessoa, para fazer o amor caber nela.
Entre o tempo de moleque e o tempo em que se escreve um livro, onde se guardam os sons de grilos, as imagens de casas castanhas e o cheiro de chuva em campinho de futebol?
Márcio - Ah, eu não guardo esses sons, essas imagens, esse cheiro. São eles que me guardam, são eles que me protegem.
O que de melhor as crianças nos ensinam? (ou ensinariam, se déssemos tempo a elas?)
Márcio - Uma das melhores coisas que elas podem nos ensinar é botar estranheza no olho e no ouvido. É olhar para tudo como se estivesse olhando pela primeira vez. Estava conversando sobre isso, numa noite dessas, com o Jefferson Alves (meu amigo e editor, da Global) e a mulher dele, a Fabíola, comendo uma pizza deliciosa de parmesão gratinado, com os dois, numa noite maravilhosa em São Paulo. A gente precisa reaprender a levar susto diante das coisas, a gente precisa reaprender a suspirar na frente das miudezas. Outro dia perguntei ao meu filho, que estava no banco de trás do carro: "Gabriel, o que você tá vendo de bonito aí pela janela?" E o moleque me respondeu, de nariz grudado no vidro: "Tudo". É isso, eu acho que a gente precisa desse tudo de beleza na vida.
Sim, é uma pena quando nada mais nos assusta... Então, cheio de susto, onde você encontra personagens tão reais, como a fada madrinha que escuta os problemas de todo mundo pelo telefone celular, a princesa que, por amor, se transforma em sapa ou o menino que é rico, mas que não consegue sonhar por que ganha tudo dos pais consumistas?
Márcio - Eu sempre preciso do personagem para contar uma história. Primeiro o personagem nasce pra mim, depois é que a história vai vindo, vai vindo, e vinga, ou não. Se eu não tenho o nome do personagem, antes de começar a escrever, por exemplo, a história não sai de jeito nenhum. Para escrever A FADA AFILHADA, publicado pela Salamandra, fiquei mais de dois anos com esse título na cabeça, mas não tinha a personagem. A história só nasceu depois que a Beatriz apareceu. E o meu próximo livro, que vai sair pela Global, também foi assim. Eu tinha uma idéia rolando de um lado pro outro em mim, mas não conseguia dar nome pra minha nova princesa. Até que, na véspera de visitar o Colégio Pentágono, em Vila Valqueire, no Rio, recebi uma mensagem toda carinhosa de uma menina chamada Valentina, estudante do Pentágono, falando sobre a expectativa dela e das outras crianças com relação à minha visita, que ela queria muito conversar comigo sobre os meus livros, que tinha gostado muito do PRÍNCIPE SEM SONHOS, coisa e tal. A Valentina foi a primeira criança a me escrever dessa escola. Depois me escreveram várias. Mas ela foi a primeira. E então, depois que eu li o nome dela no e-mail, fiquei sem ar de tanta felicidade, e escrevi em dois dias essa história que deve sair até o final do ano.
Um certo escritor disse certa vez a um grupo de amigos que saíam pelo mundo: "Vocês passarão o além do resto de seus dias a tentar ser heróis. E serão heróis por isso" Como podemos ser heróis, pelo menos de nossos filhos?
Márcio - Quando era moleque, eu achava o máximo ver o meu pai sair e chegar todo de branco, com uniforme de oficial de Marinha. Era um momento mágico para mim ver as pessoas baterem continência para ele. E até hoje eu conto pra todo mundo que a corveta Solimões (navio que hoje virou museu lá no Pará) foi campeã do Brasil em salvamentos, em resgates, em tudo mais, quando foi comandada pelo meu pai, em 1982. Foi nesse ano que ele me levou, junto com três amigos meus, pra uma viagem de navio pelo Amazonas. Foram dias e dias passando por tudo quanto é estreito, guardando cada paisagem que nunca mais sai da vista. E aí eu fico pensando que, na realidade, ele não era meu herói por que fazia tanta coisa bacana. O meu pai era meu herói por que, todo o tempo que ficava comigo, sempre foi o mais intenso possível. Ele brincava horas e horas comigo, deitado, montava forte-apache, consertava autorama, fazia pipa, me ensinava a nadar, me permitia o riso, me permitia a dor, conversava, conversava, conversava, me acolhia, me abraçava, o meu pai sempre me abraçou e sempre me beijou muito. E eu não via tanto o pai dos outros meninos dando abraço e beijo neles. De repente eram até muito carinhosos de outras formas, mas eu não via pai beijando e abraçando filho, não como o meu sempre fez. É, e eu acho que ser herói de um filho é isso, é ser o mais intenso possível (brincando, conversando, comendo, olhando, compartilhando alguma coisa) durante todo o tempo que você puder passar com ele, mas fazendo tudo isso por felicidade, não por obrigação. Outro dia o meu filho (que está fazendo cinco anos) me convidou: "Pai, vamos olhar a lua até gastar?" Eu fui com ele até a janela de casa e a gente ficou lá um bocado de tempo, de mãos dadas, sem dizer nada um pro outro, gastando a lua no olho. Acho que ser herói do filho é gastar a lua no olho, todo dia, toda noite, sempre que você estiver por perto, e mesmo de longe, por telefone, por e-mail, por carta, por pombo-correio. Mas essa é só a minha forma de ser herói. Tem muitas outras. Cada um precisa encontrar a sua.
Você girou pelo Brasil e ancorou em Copacabana há muitos anos. Esse bairro é a sua fábrica de personagens?
Márcio - Copacabana é a minha paisagem afetiva. É o bairro onde eu ia ao cinema com o meu vô Vassallo e mergulhava na praia com o meu vô Bruc. Acho que é um lugar para quem tem alma de andarilho. Eu sempre gosto de fazer tudo a pé. Não dirijo nem carro de parque de diversão. Mas olha, a minha fábrica de personagens é de fundo de quintal.
E isso é bom... Boa parte dos tesouros de nossa infância são descobertos nos fundos de quintal... Dos fundos de quintal para o Brasil, você roda o país dando palestras e oficinas para professores, me diga: se lê pouco no Brasil? Por quê?
Márcio - No Brasil, as pessoas lêem muito mais do que a gente imagina e muito menos do que a gente gostaria. Acima de tudo, enquanto não houver um investimento muito forte na criação, na manutenção e na modernização de bibliotecas em tudo quanto é cidade do Brasil, nós vamos continuar falando sobre isso. Mas não basta ter bibliotecas com bons acervos, num bom espaço, com uma boa estrutura. Ainda mais importante do que isso é ter pessoas sensíveis, pessoas cativantes, pessoas com vocação, com vibração e com preparo para trabalhar nas bibliotecas. Não adianta ter as melhores bibliotecas do mundo, se dentro delas trabalharem pessoas sem paciência, despreparadas, que olhem mais para os livros do que para os leitores. O Brasil tem profissionais muito competentes trabalhando em bibliotecas, só precisa descobrir cada vez mais onde esses profissionais estão e investir, também cada vez mais, no aperfeiçoamento e na multiplicação dessas pessoas. É claro que a gente também precisa de mais livrarias, de mais programas de incentivo à leitura, de mais campanhas e mais recursos nesse sentido, mas esse é um papo pra muitos dias.
Que breves dicas você daria para os pais apresentarem a literatura a seus filhos?
Márcio - Descubra que tipo de livro vai inquietar, vai dar riso, vai assombrar, vai deliciar o seu filho, e leia junto com ele. Não deixe que o seu gosto pessoal determine, ou limite, as leituras da criança. Sempre li muito quando menino, principalmente porque eu tive por perto pessoas que amavam ler, e que liam com cara de feliz. Não adianta uma criança conviver com pessoas que lêem de alma emburrada, cheias de placas de não perturbe, cheias de sai para lá que esse espaço é só meu. Nesse caso, a criança vai passar a ver o livro como um empecilho ao afeto, como um obstáculo ao abraço, como uma pedra na frente do colo. Nós precisamos fazer com que as crianças e os adolescentes associem a leitura a um momento mágico, a um momento encantador, a um momento cheio de febre, que mexe com o corpo todo. Nas palestras e oficinas que tenho dado pelo Brasil, no Rio, em Minas Gerais, no Amazonas, em Roraima, São Paulo, Sergipe, Santa Catarina, na Paraíba, em tudo quanto é lugar, converso muito com pais e professores sobre os caminhos para despertar nas crianças o encantamento pela leitura, pelos livros, pela literatura. E o que eu mais constato é que uma pessoa só pode despertar esse encantamento pelas palavras, pelo sonho, pela fantasia, se também estiver encantada. Mas, de volta aos autores que mais me marcaram na infância. Olha, eu me lembro agora de alguns livros que deram esse encanto tão essencial: Os meninos da Rua Paulo, O gênio do crime, A ilha perdida, Caçadas de Pedrinho... O meu pai me contava sempre a história do Robinson Crusoé, do Fantasma e do Tarzan. A minha mãe gostava de ler fábulas, gostava de ler os clássicos infantis para mim: Andersen, Perrault, Grimm, Esopo, todos eles. E eu ficava rolando de um sonho para o outro, feliz que só. Depois, na adolescência, li muito Fernando Sabino, muito Rubem Braga, muito Paulo Mendes Campos, muito Carlos Drummond de Andrade, muito Mario Quintana. A coleção Para gostar de ler foi muito importante para mim, eu gostava muito, até hoje volto para esses livros, e fico lá, rolando de um autor para outro.
E para o adolescente tímido que quer conquistar a mais bela das meninas de sua sala?
Márcio - Preste atenção nessa menina, rapaz... Repare no silêncio dela quando anda no pátio. Repare nas mãos dela quando escreve, ou quando esfrega a borracha no papel. Ela esfrega a borracha de cima pra baixo, ou de um lado pro outro? Repare no jeito que ela ri, na forma como ela suspira, no modo como ela conversa com os outros. Será que essa menina está triste hoje? Será que nenhum menino reparou que ela cortou o cabelo, só nas pontas? Será que ela gosta de sorvete de taperebá? Então, de será em será, você vai chegar mais perto dela, nem que seja só para olhar um pouco mais, nem que a sua conquista seja uma coisa só sua que você vá se lembrar daqui a um tempo com uma alegria cheia de fundura. Repare nela, repare na mais bela das meninas da sua sala. As meninas mais belas precisam de alguém que veja nelas o que ninguém vê por falta de tempo, por falta de olho, por falta de reparo mesmo. Mesmo que essa menina seja a mais bela de todo o colégio só para você. Aí é melhor ainda.
Falava-se que com o avanço da tecnologia as pessoas escreveriam cada vez menos e, no entanto, o e-mail é a ferramenta mais usada no ambiente de trabalho em todo o mundo. Ou seja: escreve-se mais que antes e sei de casos de pessoas que contrataram professores para aperfeiçoar sua gramática e estilo por conta disso. A escrita, então, tem futuro?
Márcio - A escrita é uma das melhores formas de aproximar as pessoas. E eu acho que tudo o que aproxima as pessoas tem futuro.
Só entre nós, quem é o menino da chuva no cabelo?
Márcio - Olha, só entre nós, o menino sou eu. Mas não conta pra ninguém, não, por favor. Senão, começam a aparecer muitos convites e eu não dou nem conta de responder. Outro dia contei para várias crianças, numa escola, que o meu sonho de garoto era ser sido jogador de futebol. Então, uma menina de nove anos chamada Bruna levantou a mão e me disse que, se eu quisesse, ela me apresentava ao pai dela, porque o pai dela era muito amigo de um jogador do Botafogo, e de repente esse jogador podia conseguir pra mim uma chance de jogar lá. Então, eu disse à Bruna que, dali pra frente, ela seria a minha empresária.
Alguns escrevem por dinheiro, outros por vaidade; há os que escrevem por profissão e os que acreditam ter algo a dizer ao mundo. Mas há pouquíssimos, como você, que - mas allá de precisar pagar as contas - escrevem porque não poderiam fazer outra coisa, escrevem antes do dinheiro, da vaidade, de se fazer escutar, mas porque a escrita é um sentidos a mais, o mais aguçado, pelo qual melhor se comunicam. Escrevem com uma sinceridade da alma. É um grupo mínimo de escritores generosos que compartem por quase nada o que não tem preço. Isso não é uma pergunta, mas uma declaração do orgulho que tenho de ser seu amigo. E uma prova de que, como Arthur, todos crescemos. Mas guardamos a chuva no cabelo.
Márcio - Puxa, meu bom e velho amigo, eu vou guardar essa sua declaração feito a melhor de todas as chuvas no cabelo.















