Palestras e oficinas

para diferentes públicos

Bookmark and Share

Início | Educação | Sem prazo para ser feliz

"Márcio, querido escritor,

Amo muito os teus livros (já os li todos, e reli incontáveis vezes A fada afilhada e A princesa Tiana e o sapo Gazé, meus mega favoritos). Tenho um filho de onze anos que também é teu leitor desde os oito, e guarda com orgulho uma dedicatória que fizestes para ele, durante uma visita ao colégio em que estuda, aqui em Porto Alegre! Então, quero te agradecer por ter ajudado a tornar meu filho um leitor e também por deixares os meus dias mais felizes, com mais brilho, poesia e mansidão, palavra esta que entendes como poucos.

Além de te agradecer por tudo isso, quero levantar uma questão. Sou muito exigente comigo mesma, às vezes até demais, e me cobro demasiadamente em todos os sentidos. Dizem que sou uma mulher muito bonita e que também sou talentosa na minha profissão. É claro que os elogios têm o seu lado positivo, sem dúvida, mas cresci ouvindo todo tipo de exagero, e ainda os ouço, sobretudo das pessoas que mais amo, ou amei. Isso me causa uma pressão muito grande, e passo a me cobrar ainda mais. Na realidade, nunca acho que estou de fato tão bonita, nem acredito tanto assim no meu talento, apesar de ser mesmo bem-sucedida no meu trabalho. Obviamente não culpo os outro s por tudo isso, sei que o problema está em mim, e também percebo o quanto essa cobrança intensa que me faço exclui da minha vida qualquer possibilidade de encantamento, inclusive em meus relacionamentos amorosos. Conclusão: acabo me relacionando com homens que me cobram ainda mais, em termos visuais e profissionais, ou que se interessam apenas pelo meu lado exterior, valorizando somente isso, sem conseguir me enxergar ou me aceitar como eu sou de fato. Sei que não tens (nem tentas ter) fórmulas mágicas para resolver problemas dos teus leitores, mas ficaria muito contente se pudesses me dar uma sugestão (se for mágica, melhor ainda... hahaha). O que tu me dizes?"

- Mariana Moreira, advogada, Porto Alegre, RS.

Oi Mariana,

Gostei muito de saber que o seu filho me guarda bem até hoje e que você me lê de uma forma assim tão frequente, viu? Estou aqui pensando na questão que você levantou. Sempre quando alguém me diz que vai levantar uma questão, eu fico esperando por esse levantamento, mas a questão continua deitada, sem quase nunca nem olhar na minha cara. De todo modo, enquanto não acho uma fórmula mágica (rs), estou aqui pensando: por que será que a você se cobra, se culpa e se exige tanto?  Os outros não conseguem enxergar e aceitar quem você é de fato? Mas será que você mesma consegue fazer isso de verdade, querida leito ra? Por que geralmente procuramos mais por respostas que nos amansem do que por perguntas que nos clareiem?

Ah, tem mais um bocado de perguntas zanzando pela minha ideia. Você não se acha tão bonita nem tão talentosa quanto dizem que você é? Quer uma sugestão? Que tal parar de se comparar com o que dizem de você e começar a reparar no que ninguém repara? O que faz com que você se sinta bonita de verdade, Mariana? Beber muita água para deixar a pele brilhosa? Andar de bicicleta até ganhar leveza no quadril? Comprar um chapéu que você sempre teve desejo de usar? Ligar para alguém que te faz rir fácil? Escolher sem pressa uns brincos, em casa, para ir ao supermercado? Usar uma trança única de um lado no ombro? Viver uma alegria inédita? O que será que te deixa mais bonita, Mariana? Quer outra sugestão: se te der vontade, pense e responda, ou melhor, responda essa e algumas das suas indagações essenciais, sem pensar tanto, e sinta tudo o que mais estiver carecendo sentir, sem travas, sem pensamentos, sem prazo para ser feliz.