"Márcio querido,
Acabei de escrever um email gigantesco para você e o perdi todinho. Essas coisas só podem acontecer com palhaças e desavisados. Mas eu o tenho todinho na minha memória e vou reescrevê-lo agora. Lembro da vez que você veio a Chapecó, na Feira do Livro, e eu assisti à sua palestra e chorei de emoção, e depois quando eu tive a honra de você ler o meu poema de infância e ainda achá-lo bonito. Mas não foi só para relembrar ou sentir nostalgias que eu te escrevi. Preciso que você me socorra. Apesar de ocultar sua identidade secreta, sei bem que você só pode ser o super herói dos encantados, e que não mede esforços em abrir mão de suas armas secretas, as palavras, para reverter feitiços lançados para fim de desencanto. Pois bem, por mais que você deseje ficar no anonimato, me ajude, mesmo com disfarce, a achar o paradeiro do meu encantamento.
Eu que já estive tão encantada e sentia uma espécie de aquecimento na região do meu coração, e este calor se expandia através de palavras, olhares, toques e risos frouxos, agora não o sinto mais. Procurei por esse aquecimento em páginas de livros conceituados ou sem conceito nenhum, já visitei lugares propícios onde ele podia estar escondido, como uma cachoeira escondida, bem escondida e cheia de borboletas, e quedas de água; já fui ao parque e olhei os pássaros e vi toda a espécie de tons de verde e de cheiros de terra e mato; fui a um espetáculo de circo pobre, onde todos os números eram musicados por uma orquestra de sapos chorosos; fui para os braços do meu irmão Gabriel e me enrolei toda, mas nada. Você pode me ajudar? Onde o meu encantamento terá se escondido? Ou será que anda perdido? Ou será que eu me esqueci?"
- Michelle Silveira da Silva, palhaça, Chapecó, SC.
Oi Michele,
Não posso te revelar a minha verdadeira identidade secreta, para tua própria segurança, viu? Mas gente que usa tão bem a alegria para entrar no coração das pessoas, que nem você, às vezes acha que não existe encantamento na tristeza nem tristeza no encantamento. Claro, não é fácil ser palhaço, com ou sem picadeiro, e ter que ficar sempre em estado de graça para as pessoas, como já me disse alguém que sabe tirar freio do meu riso. A maioria das pessoas estranha quando vê um palhaço sem nariz vermelho, de asa baixa, sem vontade de fazer outras pessoas rirem, enfim, sem quentura exibida, sem humor, sem encanto.
Então, qual o paradeiro do seu encantamento, querida? Ah, acho que ele está dentro de você, brincando de estátua e esperando por umas brechas para transbordar, se meter no seu dia, dar brilho no seu olho, cruzar a sua história. Quer uma sugestão? Não tenha pressa para descobrir essas brechas, mas fique disponível para elas, quem sabe, nas páginas de um livro do Manoel de Barros, num banquete de pastel com arroz, feijão e farofa, numa surpresa vendada só para dar molho na espera, numa rede na varanda, num circo de sapos fissurados por mariposas descompensadas; numa música do Fagner, na fila do cinema, aonde mais o teu reparo te levar, Michele. Então, agora espere, ou melhor, agora pare um pouco de esperar e fique mansa. Na hora incerta, você vai se encantar.















