"Oi Márcio,
Sou professora, tenho 33 anos, amo muito a minha profissão. Fico demasiadamente feliz quando sinto que faço uma diferença positiva na vida dos outros, principalmente na vida de meus alunos, e foi essa diferença que tu fizestes na minha vida quando assisti a uma palestra APAIXONANTE tua aqui em Passo Fundo. Desde então me tornei tua maior leitora. Já percebestes o quanto sou pretensiosa, não é? Pois duvido mesmo que haja neste país (ou em outro continente) alguém que goste do que tu escreves mais do que eu gosto! Então, agora, por favor, responda para tua maior leitora: como educar para o encantamento um guri mega amoroso e sensível, de oito anos, cujos pais só se preocupam em tentar transformá-lo num gênio bem-sucedido e que mal olham na cara do menino? Já tentei conversar com ambos, no ano passado, mas a mãe nitidamente não escuta uma palavra do que eu digo e o pai só aparece na escola falando no celular. Creio que esse homem tem um celular colado na mão! Achas que posso fazer alguma coisa para mudar essa atitude deles? No ano passado eu vivi tal situação com esse então aluno meu na escola onde trabalho e (apesar de saber que não serei sua professora este ano) gostaria de conversar com minha coordenadora pedagógica sobre o assunto e, para tanto, preciso tremendamente de uma luz no meio dessa minha aflição!"
- Marília Coimbra, professora, Passo Fundo – RS.
Oi Marília,
Gostei muito de saber que tenho uma maior leitora. E ainda há quem pense que eu escrevo só para menores, viu só? Também adorei receber uma mensagem tão bonita e luminosa, mas você não precisava me pedir pelo que já tem, não. Essa luz de tirar aflição já está na forma cheia de fundura com que você repara no seu aluno. Os pais mal olham na cara do guri e você não consegue de jeito algum conversar com eles? Que tal fazer o que estiver ao seu alcance? Conversar com a sua coordenadora pode ser uma bela possibilidade. Trocar uma ideia com a nova professora do garoto também. Tomara que elas sejam mulheres com sensibilidade para ouvir o que você tem a dizer, sem rotular o menino nem a família dele, por mais que isso seja um caminho mais fácil, cômodo e simplista.
Então, o que mais está ao seu alcance, Marília? Já teve vontade de escrever uma carta para os pais dessa criança, contando o quanto você acha o filho deles amoroso e sensível, e o quanto esse menino precisa de reparos profundos em vez de pressões excessivas? Já pensou em continuar com esse seu reparo, sempre que encontrar com o seu ex-aluno no pátio da escola ou em outro lugar? Que surpresa você poderia fazer para ele, ou para os pais dele? Conheço alguém que sabe um bocado emocionar os outros e dar presentes surpreendentes e originais, sem data obrigatória nem motivo quadradinho. O motivo dela é sempre uma queda irresistível para o encantamento e o amor. Pode ser um vídeo inusitado para sua sobrinha, com fotos de tirar suspiros, uma tirada de riso sem freio na fila do cinema, para quem estava carecendo rir, um CD cheio de músicas antigas que a irmã não baixaria nunca na internet, uma sessão inesperada de cachorro quente com molho feito em casa, para a reunião do filho com os amigos, um vestido feito por ela mesma para dar brilho no seu próprio olho e no de quem souber olhar.
Assim, Marília, meninos e escolas à parte, de que modo você tem surpreendido quem você mais gosta? Será que você tem se surpreendido também? Não só no trabalho, mas também no cotidiano, ter tempo e disponibilidade para essas pequenas surpresas é essencial para quem deseja viver em estado de poesia e encantamento, apesar de todos os ouvidos fechados e de toda a falta de reconhecimento que possam nos cercar. O que mais importa é que a gente mantenha o impulso de se surpreender, de se encantar e de se emocionar. Bem, o resultado nem sempre será cheio de fogos de artifício, silêncios arrepiados, choros sorridos e risos lagrimados, para você, mas a beleza do percurso ninguém poderá nunca tirar do seu dia.















