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Início | Educação | Encantar é o básico na educação
"Caro Márcio,

Tenho acompanhado com interesse a sua coluna, sobretudo pelos comentários entusiasmados de minha esposa, que é sua leitora há muitos anos. Entretanto, com todo o respeito ao seu inestimável trabalho (não me recordo agora se alguém também já abordou contigo este assunto em seu site), você não acha que é uma utopia falar em educação para o encantamento num país sem leitores como o Brasil, com escolas absolutamente despreparadas e um nível baixíssimo de professores? Tenho o privilégio de ter a minha filha estudando numa das mais conceituadas escolas de São Paulo, vislumbrando assim, para ela, um futuro bem-sucedido e repleto d e oportunidades, mas também sei que, infelizmente, a maioria das crianças brasileiras não tem acesso ao conhecimento e a uma educação de qualidade. Minha esposa me disse que brigaria de verdade comigo se eu fizesse esta provocação a você (rs), mas creio que toda forma de diálogo seja importante. Sendo assim, termino com outra questão: como falar em educação para o encantamento num país que mal engatinha na educação básica?"  
- Luís Fernando Lima, advogado, São Paulo, SP.


 
Caro Luís Fernando,

Não há nada tão básico quanto o encantamento na educação. Tenho viajado há muitos anos por todas as regiões do Brasil, em capitais, cidades do interior e zonas rurais. E o que mais encontro por aí são professores de altíssimo nível que encantam os seus alunos e os incendeiam de beleza, trabalhando e vivendo com muita paixão, muito desejo e muita garra, apesar de todo o descaso com que costumam ser tratados, em tantos aspectos.

Sobre sua outra observação, a realidade é que o Brasil tem muito menos leitores do que gostaríamos e muito mais do que imaginamos, Luís Fernando.  Você não calcula a quantidade de crianças que lêem e conversam sobre literatura, muito mais do que nós adultos, não importa se elas estudam em escolas conceituadas ou à beira de igarapés na Amazônia. O que mais importa de verdade é que elas encontrem na sala de aula uma professora apaixonada por gente e que, se possível, tenham um acolhimento amoroso em casa.   

Ah, sim, concordo com você, há maus professores, como há maus escritores, maus advogados, maus profissionais em todas as áreas. E é claro que por várias vezes me desanimo profundamente com velhos discursos de tantos educadores viciados na mesmice e em comportamentos obtusos no dia a dia escolar. Mas também conheço professores que dão aulas encantadoras, que fazem mágica sem precisar de cartolas, em lugares que não estão nos mapas, às vezes sem livros, sem giz, sem carteiras para as crianças, sem luz elétrica, sem um salário nem perto de digno, mas com um tesão desembestado que supera tudo isso.

Luís Fernando, por falar em superação, apesar de ter gostado de responder essa provocação, espero que a sua mulher realmente brigue com você (rs), mas que antes de bem logo vocês façam as pazes, de preferência comendo hoje mesmo uma porção de croquetes de mortadela. Fica a minha sugestão para você, rapaz. Se forem feitos por alguém que ame e saiba cozinhar, croquetes de mortadela são uns verdadeiros amansadores de coração.