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Educação para o encantamento

 


Aprender a parar, reparar e se surpreender, sem pressa e com o coração disponível para a beleza, é um passo essencial na educação para o encantamento. Mas o que é fundamental nessa educação? Qual a serventia da beleza no dia-a-dia? Qual a serventia de um dia-a-dia sem beleza? Como apurar o olho e viver em estado de poesia, no meio das nossas perdas, dos nossos vazios, das nossas decepções, dos nossos desacertos, das nossas dores, dos nossos desencontros, das nossas faltas, dos nossos excessos, das nossas ansiedades mais tiradoras de sono?

Além de conversar sobre essas e outras questões em todas as regiões do Brasil, Márcio responde e-mails de quem tem interesse pelo tema. Então, mande a sua pergunta para ele. Clique aqui.

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"Querido Márcio,

Assisti a uma palestra sua em Contagem-MG, recentemente, quando você abriu um curso da Secretaria de Educação aqui do município, falando sobre a importância do encantamento em nossas vidas, e também lendo as histórias dos seus mais novos livros, A professora encantadora, e Minha princesa africana. Foi um privilégio ouvir as suas histórias maravilhosas lidas por você, na sua voz calma, com tanto sentimento, tanta emoção e verdade. Fiquei muito mexida com tudo o que escutei na palestra também. Agora (assim como minhas amigas professoras que estiveram lá, mas não sei se vão ter coragem para te escrever) não consigo mais parar de pensar naquele encontro e no quanto ele significou para mim, em term os pessoais e profissionais! Tenho 29 anos, sou professora há quase dez. Procuro sempre trabalhar em estado de poesia, como você diz (eu gosto tanto dessa sua expressão!). Eu me identifiquei demais com as questões que você levantou, sobretudo em relação à criatividade e à sensibilidade que precisamos ter para seduzir um leitor, sem transformar a literatura em uma obrigação chata e tediosa, com provas e fichas de leitura sobre o livro, Deus me livre! Aliás, por falar em livro, gostaria de te dizer que eu amei todos os seus que já li até o momento, principalmente A professora encantadora, Da minha praia até o Japão, e Minha princesa africana. Tudo bem, tudo bem, só li esses três até agora, mas amei todos mesmo assim (risos). Eu, que já vivi um grande amor à distância que também não deu certo, quero te dizer que Minha princesa africana é uma das histórias mais bonitas e arrebatadoras que já li na vida. E eu já li muitos livros na vida (risos). A história da princesa Marinela é romântica sem ser piegas, doce sem ser enjoativa, definitivamente encantadora, linda, linda, linda!!! Minha pergunta para você é a seguinte: como ver beleza na tristeza, como enxergar encantamento no fim de um amor, Vassallo? Como fazer com que isso aconteça não só na fantasia, mas também na vida real? Você acha que isso é possível mesmo?"

- Karina L. Guimarães, professora, Contagem, Minas Gerais.

Oi Karina querida,

Obrigado por essa sua mensagem de abrir sorriso. Aquele encontro em Contagem também foi inesquecível para mim. O curso da secretaria de educação aí do seu município, para tornar a escola mais acolhedora, em todos os sentidos, é um dos mais criativos, mais sensíveis e mais bem organizados que eu já vi até hoje, em todo o Brasil.

Não há uma fórmula para vermos beleza na tristeza nem para enxergarmos encantamento no fim de um amor. Ah, e se o amor que você viveu à distância foi grande, ele deu certo, não acha? Terminar um relacionamento não quer dizer que deu errado. Do mesmo modo que ficar junto para sempre não quer dizer que deu certo. Um ponto final não desqualifica tudo o que você viveu, por mais doloroso que tenha sido esse término. E, na realidade, só é possível enxergar encantamento no fim de um amor, se você conseguir ver encantamento em tudo o que estiver ao seu alcance, até na dor. É o que eu penso. A dor não é encantadora, claro, sobretudo quando é funda. Encantador muitas vezes é o que existe em torno da dor, é o que ela nos traz de mais humano, bonito e mais acolhedor.

No dia oito de maio, perdi a minha avó Fófa, mãe do meu pai. Perder a Fófa foi muito doído, principalmente porque eu convivia um bocado profundamente com ela. O meu filho mandou para mim uma braçada de bombons, para eu dá-los a quem mais precisasse no velório dela. Então, quando eu me preparava para fazer isso, o meu pai pegou um Chokito da minha mão e me disse: “Eu sei quem está precisando muito desse chocolate”. Foi assim que ele se virou para a minha avó, colocou o bombom ao lado do seu rosto, no caixão, e disse para ela, com os olhos marejados e um riso arregaçado na cara: “Mamãe, hoje você está liberada, o bombom é seu”. A minha avó, que tinha diabetes, aparentemente não respondeu, mas aquele gesto do meu pai foi uma resposta para toda a vida da minha avó. E quem chegava perto dela para se despedir, via o Chokito no meio das flores, ao lado da Fófa. A cena foi um afresco de beleza no meio da tristeza, Karina. 

Bem, menos de dois meses depois, neste momento, a minha também amada avó Rubenita está internada em estado grave, no hospital. Feito a Fófa, Rubenita sempre teve muito bom humor, mas agora, debilitada, não tem conseguido falar. Sinto muita falta da sua voz e quero muito escutá-la de novo. Tomara que eu possa escutá-la de novo. Por enquanto ela também praticamente não consegue se mover nem abrir os olhos, mas pode nos ouvir. Percebemos isso quando os seus batimentos e a sua respiração ficam mais fortes, depois que falamos coisas no seu ouvido. Outro dia li um conto do Eduardo Galeano no ouvido da minha avó. Era um dos tantos livros que estavam na cabeceira dela, no dia em que foi internada às pressas. E no CTI onde a Rubenita está, em meio ao sofrimento de tantas pessoas à nossa volta, o enfermeiro Leandro é uma prova preciosa de que realmente podemos ver beleza na tristeza. É claro que ele também é delicado, sensível e amoroso com todos os pacientes do CTI e com todos os familiares que estão ali, tão fragilizados. Provavelmente o Leandro age dessa forma com quem convive com ele, no dia a dia. Afinal, o nosso comportamento no trabalho costuma ser uma consequência do que fazemos em nossa vida pessoal, e vice-versa.

Sobre outra pergunta sua, Karina, como ver encantamento na fantasia e também na vida real? Ah, para mim, a fantasia só é possível porque existe a realidade, e a realidade só é suportável porque existe a fantasia. Mas olha, bom mesmo é quando a sua mais sublime realidade é uma fantasia que saiu de dentro da sua cabeça, ainda mais interessante, ainda mais palpável, bem mais apaixonante e mais surpreendente do que você bordava na sua imaginação.

Depois de um longo tempo, volto a escrever aqui no site.

Parei de escrever porque não que estava conseguindo parar para as palavras. Mas, no fundo, elas é que me pararam bem agora.

Ser parado pelas palavras é uma das coisas que eu mais gosto na vida. Bem, tem vezes que é justamente a falta de palavras que me faz parar numa beleza vestida de coisa comum, num silêncio escandaloso, numa frase que alguém diz sem nem saber que está fazendo poesia.

Outro dia, no supermercado, perguntei à Francisca se borboleta escuta. Antes que alguém de estudo me esclareça, essa é uma dúvida que eu não quero tirar. A maior estudiosa no assunto já me desorientou o suficiente. Fiz a pergunta só para saber o que a Francisca acha. Ah, a Francisca é um anjo disfarçado de caixa de supermercado. Belo disfarce, por sinal. Só vacilou porque, na última vez que a vi, reparei num volume de asa guardada nas suas costas. Então, enquanto registrava as compras, com um sorriso nada guardado, ela disse que não sabia a resposta, não.

Mais que um bom tempo depois, Francisca pergunta se o mistério acabou, como se anjo carecesse de mistério resolvido. E antes que alguma resposta sem serventia interrompa a cena, entre uma garrafa de coca zero e um ramo de manjericão, a moça passa um verso no débito automático. “Lá na roça diz que os ouvidos da gente têm borboletas”.

Se borboleta escuta, ou não, é um mistério que eu realmente não quero esclarecer. Descobrir que ouvido tem borboleta é um privilégio de quem se permite parar.

Hoje eu me permiti. Obrigado, Francisca.

"Márcio, querido escritor,

Amo muito os teus livros (já os li todos, e reli incontáveis vezes A fada afilhada e A princesa Tiana e o sapo Gazé, meus mega favoritos). Tenho um filho de onze anos que também é teu leitor desde os oito, e guarda com orgulho uma dedicatória que fizestes para ele, durante uma visita ao colégio em que estuda, aqui em Porto Alegre! Então, quero te agradecer por ter ajudado a tornar meu filho um leitor e também por deixares os meus dias mais felizes, com mais brilho, poesia e mansidão, palavra esta que entendes como poucos.

Além de te agradecer por tudo isso, quero levantar uma questão. Sou muito exigente comigo mesma, às vezes até demais, e me cobro demasiadamente em todos os sentidos. Dizem que sou uma mulher muito bonita e que também sou talentosa na minha profissão. É claro que os elogios têm o seu lado positivo, sem dúvida, mas cresci ouvindo todo tipo de exagero, e ainda os ouço, sobretudo das pessoas que mais amo, ou amei. Isso me causa uma pressão muito grande, e passo a me cobrar ainda mais. Na realidade, nunca acho que estou de fato tão bonita, nem acredito tanto assim no meu talento, apesar de ser mesmo bem-sucedida no meu trabalho. Obviamente não culpo os outro s por tudo isso, sei que o problema está em mim, e também percebo o quanto essa cobrança intensa que me faço exclui da minha vida qualquer possibilidade de encantamento, inclusive em meus relacionamentos amorosos. Conclusão: acabo me relacionando com homens que me cobram ainda mais, em termos visuais e profissionais, ou que se interessam apenas pelo meu lado exterior, valorizando somente isso, sem conseguir me enxergar ou me aceitar como eu sou de fato. Sei que não tens (nem tentas ter) fórmulas mágicas para resolver problemas dos teus leitores, mas ficaria muito contente se pudesses me dar uma sugestão (se for mágica, melhor ainda... hahaha). O que tu me dizes?"

- Mariana Moreira, advogada, Porto Alegre, RS.

Oi Mariana,

Gostei muito de saber que o seu filho me guarda bem até hoje e que você me lê de uma forma assim tão frequente, viu? Estou aqui pensando na questão que você levantou. Sempre quando alguém me diz que vai levantar uma questão, eu fico esperando por esse levantamento, mas a questão continua deitada, sem quase nunca nem olhar na minha cara. De todo modo, enquanto não acho uma fórmula mágica (rs), estou aqui pensando: por que será que a você se cobra, se culpa e se exige tanto?  Os outros não conseguem enxergar e aceitar quem você é de fato? Mas será que você mesma consegue fazer isso de verdade, querida leito ra? Por que geralmente procuramos mais por respostas que nos amansem do que por perguntas que nos clareiem?

Ah, tem mais um bocado de perguntas zanzando pela minha ideia. Você não se acha tão bonita nem tão talentosa quanto dizem que você é? Quer uma sugestão? Que tal parar de se comparar com o que dizem de você e começar a reparar no que ninguém repara? O que faz com que você se sinta bonita de verdade, Mariana? Beber muita água para deixar a pele brilhosa? Andar de bicicleta até ganhar leveza no quadril? Comprar um chapéu que você sempre teve desejo de usar? Ligar para alguém que te faz rir fácil? Escolher sem pressa uns brincos, em casa, para ir ao supermercado? Usar uma trança única de um lado no ombro? Viver uma alegria inédita? O que será que te deixa mais bonita, Mariana? Quer outra sugestão: se te der vontade, pense e responda, ou melhor, responda essa e algumas das suas indagações essenciais, sem pensar tanto, e sinta tudo o que mais estiver carecendo sentir, sem travas, sem pensamentos, sem prazo para ser feliz.