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Para desembrutecer a rotina Imprimir PDF

"Márcio,

Depois que uma mulher tem seu primeiro filho, em geral ela vira a mãezona da casa. Perde o posto de namoradinha e se torna a destinatária de todas as queixas. É ela quem assume a responsabilidade pelo marido, pelo bebê, pela empregada/faxineira, por tudo o que se relaciona ao gerenciamento do lar, desde a arrumação da casa até a conferência da roupa passada dentro das gavetas, e faz todas essas coisas mesmo trabalhando diariamente.
Como é que essa mulher abafada por tantas providências, por tantas requisições dessa jornada interminável, pode resgatar aquilo que era antes, e reaver o seu temperamento anterior, de encantamento, mesuras e delicadezas, apesar de todo o embrutecimento que a rotina traz ao relacionamento doméstico?"
- Juliana Varandas, cardiologista, São Paulo, SP.

Juliana,

Quem faz resgate é bombeiro, policial, salva vidas e correntista de banco. Enquanto uma mulher tentar resgatar aquilo que era antes, vai continuar paralisada num tempo que já passou. A gente nunca mais vai ser o que foi antes, ainda bem. E não é a rotina que embrutece o relacionamento das pessoas. Na realidade, as pessoas é que embrutecem a rotina. Será que alguma mulher  nasceu para ter posto de namoradinha, posto de supervisora de faxina, posto de conferencista de gavetas, posto de gerente da casa? Juliana, mulher postada ganha alma de poste: parada eternamente no mesmo lugar, à mercê de tudo e de todos que passam por ela.

Bem, vou te dizer o que eu acho. Afinal, lembro sempre, aqui eu revelo os meus achamentos.

Assim, se uma mulher assume sozinha esses e outros papéis, é uma escolha dela, muito dela, só dela. E quando diz que se tornou a destinatária de todas as queixas, no fundo, ela está se queixando. Mas ela pode parar de se queixar e tirar quinze minutos do dia para ver uma beleza inédita em pequenas cenas, na rua, no trabalho, em casa, onde estiver. É quando reaprender a ver beleza inédita nos outros que ela vai descobrir formas novas de se ver linda também. Então, quando ela passar a se ver realmente bela, mesmo diante de todos os conflitos inevitáveis de todos os dias, essa dona vai começar a dar passos, vai começar a se movimentar, vai começar a descobrir que não precisa ser mais quem já foi um dia, que pode ser outra mulher, sem perder a própria essência. E não vai mais ter tempo para desfiar queixas de quem se queixa dela. Pode ser que esse movimento na direção do encantamento contagie os outros. Pode ser que não contagie tanto. Só que, quando perceber, por mais amor que tenha pelas pessoas, ela não estará mais dando passos por ninguém, muito menos para resgatar isso ou aquilo. Ela dará passos pelo prazer de andar, pelo prazer de parar, pelo prazer de viver. 

 

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